domingo, 16 de abril de 2017

Média de passageiros da linha 4 do metrô é 46% abaixo da esperada

16/04/2017 - O Globo

Composições transportam apenas 140 mil passageiros por dia
   
POR LUIZ ERNESTO MAGALHÃES 

Passageiro espera o trem da linha 4 na estação Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca - Ana Branco / Agência O Globo

RIO - A diarista Antônia Figueiredo mora em Guaratiba e uma vez por semana precisa ir a Botafogo, para trabalhar. Depois de algumas viagens pela Linha 4, ela desistiu de pegar o metrô até a Zona Sul. Apesar de economizar quase uma hora no deslocamento, preferiu voltar à rotina de embarcar em três ônibus: usa uma linha alimentadora, o BRT Transoeste e um circular. A decisão foi baseada unicamente na questão financeira: embora mais rápida e sem aperto, a viagem de metrô pesa no bolso.

— De ônibus, gasto R$ 7,60 para ir a Botafogo e voltar, pois pago apenas uma passagem com o Bilhete Único. De metrô (considerando a tarifa promocional válida na integração do BRT com a Linha 4 na estação do Jardim Oceânico), desembolso R$ 14. Ou seja, prefiro economizar R$ 6,40 — explica Antônia.

A justificativa da diarista é a mesma de muitos passageiros que, desde a semana passada, aproveitam a gratuidade oferecida pela concessionária do metrô para quem embarcar nas estações da Linha 4, que vai de Ipanema à Barra. A chance de viajar de graça termina hoje.

PROJEÇÃO FICOU LONGE DA REALIDADE

A promoção, lançada sete meses após a abertura da nova linha, é uma estratégia para atrair passageiros, já que as composições têm circulado vazias. Estudos técnicos de demanda contratados pelo governo estadual em 2011 previam que a Linha 4 transportaria cerca de 300 mil usuários por dia no primeiro ano de operação. A realidade, no entanto, está longe da projeção: antes da oferta de viagens gratuitas, a média diária era de 140 mil por dia (46,6% do total esperado).

Vagão com vários assentos desocupados: imagem comum em composições que deixam a estação do Jardim Oceânico. - Ana Branco / Agência O Globo

Agora, a expectativa da Secretaria estadual de Transportes é que o patamar de 300 mil só seja alcançado em três anos. A nova previsão é fechar os 12 primeiros meses de operação com 255 mil usuários por dia, o que significa aumentar em 82% o número de usuários.

Em nota, o órgão admite que os estudos de viabilidade foram desenvolvidos projetando um outro cenário nas demandas por viagens na Linha 4. A secretaria também reconhece que o modelo atual, sem integração, acarreta ineficiência para todo o sistema de transporte público da Barra. Agora, o estado vem revendo todo seu planejamento operacional na região.

O estudo original da Linha 4 traçava um cenário no qual haveria integração tarifária entre diversos modais, e não apenas com o BRT. A expectativa era que 65% dos usuários chegassem ao metrô por meio de outros tipos de transporte. Além disso, o plano inicial não previa, por exemplo, as obras da prefeitura no Elevado do Joá, que ampliaram em 35% (cerca de 40 mil veículos a mais) a capacidade da via, minimizando um dos principais gargalos da ligação da Barra-Zona Sul.

Também ficou de fora do projeto a implantação, por parte do município, de um sistema de racionalização das linhas de ônibus, iniciado há dois anos e suspenso pelo atual prefeito Marcelo Crivella, para reavaliação.

ESPECIALISTA CRITICA PREFEITURA

A Linha 4, que consumiu mais de R$ 10 bilhões, foi projetada com seis estações. Cinco estão em funcionamento: Jardim Oceânico, São Conrado, Antero de Quental, Jardim de Alah e Nossa Senhora da Paz. A da Gávea continua sem sair do papel (o custo da obra é de cerca de R$ 500 milhões), mas isso não explica a baixa demanda: de acordo com o estudo original da Linha 4, ela é a que teria menor fluxo: 19.100 passageiros a cada dia útil.

— O cenário mostra que faltou planejamento integrado entre os projetos de mobilidade da prefeitura e do governo do estado. O desafio, agora, é estimular a integração entre os modais. É preciso evitar medidas que estimulem ainda mais o uso de automóveis. No entanto, a prefeitura já anunciou o interesse de fazer parcerias público-privadas para construir grandes garagens subterrâneas — critica engenheiro de transportes e professor da PUC José Eugênio Leal.

O secretário municipal de Transportes, Fernando Mac Dowell, defende a revisão do processo de racionalização das linhas de ônibus e também diz que o caminho certo é o da integração tarifária. Mas ele não dá prazos:

— Nós estamos conversando com o estado. O ideal seria a municipalização do metrô, para inclui-lo numa estratégia de operação com os ônibus. A integração tarifária é possível. Existiu nos primeiros anos do metrô na cidade.

Em nota, a Secretaria estadual de Transportes informa que tem monitorado as operações da Linha 4 e discutido com a concessionária do metrô medidas de integração com os ônibus. “Determinados serviços e linhas deveriam alimentar o sistema de alta capacidade, mas acabam por dividir passageiros”, diz o texto.

No entorno da estação do metrô no Jardim Oceânico, a operação dos demais serviços de transportes parece dar razão ao professor José Eugênio Leal. Para chegar ao terminal de integração pagando a passagem promocional (R$ 7), o passageiro tem como única opção o BRT Transoeste. Caso opte por uma das dezenas de linhas que circulam pela Avenida Armando Lombardi, terá que desembolsar os R$ 3,80 do coletivo mais os R$ 4,30 do metrô.

Não há descontos para quem viaja na Linha 4 e nos ônibus que param no terminal da Avenida Nuta James (em frente ao Condomínio Cascais), construído para operar de forma integrada com o metrô. O local virou apenas uma parada para duas linhas convencionais de ônibus que ligam a Barra até o Centro (concorrendo com o metrô), com itinerários que seguem pelo Alto da Boa Vista e pela Linha Amarela.

Morador do condomínio Alfa Barra, o advogado Josué Camargo é usuário da linha 805 (Alvorada-Jardim Oceânico), que circula pela orla em intervalos de aproximadamente 15 minutos. Ele diz que, de vez em quando, opta pelo ônibus, por ser mais barato.

— Trabalho no Centro. O metrô é mais rápido e confortável, pena que as tarifas sejam diferentes. Quando chega perto do fim do mês, escolho o ônibus para economizar.

ÔNIBUS DE CONDOMÍNIOS SEGUEM CHEIOS

Na Barra, a Linha 4 encontra um outro obstáculo: moradores de condomínios que têm ônibus fretados para o Centro e a Zona Sul não migraram para o metrô. Esses veículos representam uma oferta de dez mil assentos por dia. O presidente da Câmara Comunitária da Barra, Delair Dumbrosck, diz que a mudança só acontecerá se houver uma facilidade maior para o embarque na estação do Jardim Oceânico.

— Ainda não conseguimos autorização da prefeitura para que os ônibus fretados dos condomínios parem ali perto, no terminal da Avenida Nuta James. Além disso, solicitamos à concessionária que avalie a possibilidade de criar uma linha de “metrô sobre rodas” na região — reclama Dumbrosck.

A concessionária Metrô Rio informa, em nota, que o movimento diário nas estações da Linha 4 chegou a 150 mil passageiros neste período de viagens gratuitas. Além disso, destaca que sempre discute com o estado e a prefeitura novas integrações tarifárias.

A empresa não quis divulgar a quantidade de embarques em cada estação da Linha 4: alegou que se trata de um assunto estratégico. A Metrô Rio informou apenas que 52 mil passageiros passam pelo Jardim Oceânico a cada dia. O estudo de viabilidade indicava um potencial de 91.018 no primeiro ano de operação.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/media-de-passageiros-da-linha-4-do-metro-46-abaixo-da-esperada-21214768#ixzz4ePUP4l3K 
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