quarta-feira, 19 de abril de 2017

Linha 4 do Metrô do Rio rendeu propina de R$ 50 mi a Cabral, dizem delatores

18/04/2017 - Istoé

Estadão Conteúdo

Mesmo com estações não concluídas até hoje, a construção da Linha 4 do Metrô do Rio, que liga a zona sul à região da Barra da Tijuca, rendeu milhões ao ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) e ao então secretário de Transportes fluminense, Júlio Lopes. Em suas delações, os ex-executivos da Odebrecht Benedicto Júnior, o ‘BJ’, e Marcos Vidigal apontam pagamentos aos políticos, que somam mais de R$ 50 milhões a Cabral – o “Proximus” na planilha de propinas da Odebrecht -, atualmente preso no Complexo Penitenciário de Bangu, e R$ 4 milhões a Lopes, deputado federal pelo PP.

Considerada um obra essencial para a mobilidade da Olimpíada de 2016, a linha 4 do Metrô do Rio foi idealizada ainda em 1998, quando uma concessionária liderada pela empreiteira Queiroz Galvão venceu o edital.

Quando Cabral retomou o projeto, em 2009, após a escolha do Rio como sede dos Jogos, a Odebrecht comprou por R$ 11 milhões a participação da empreiteira Constran, ficando com 33,3% do contrato. A partir daí, de acordo com ‘BJ’, a empresa passou a pagar propina aos políticos para conseguir tocar a obra, que tinha como prazo de conclusão fevereiro de 2016.

Com o andamento da construção da linha, que foi dividida em duas frentes de trabalho, o peemedebista começou a discutir, como de costume, um pagamento de 5% do contrato.

De acordo com ‘BJ’, o pedido foi discutido em reuniões com o então governador, já que a empresa se recusava a pagar um valor tão alto. “Eu dizia: ‘governador, eu paguei R$ 11 milhões só para entrar nesse negócio […] Qualquer conta que eu venha a fazer, ajudar, não tenho problema de ajudar, mas não posso ser tratado com 5%”, delatou ‘BJ’.

Após a negociação, Cabral teria recebido R$ 50,5 milhões, de acordo com os lançamentos registrados na “planilha da propina” da Odebrecht.

Já Marcos Vidigal, representante da Odebrecht na obra, relatou encontros com executivos da Queiroz Galvão, então líder do consórcio, sobre a importância de pagar propina de 0,5% do valor do contrato ao então secretário Júlio Lopes.

O contato teria sido feito pelo executivo Lúcio Silvestre, que “explicou que os pagamentos tinham uma importância estratégica, pois, caso não fossem efetuados, poderíamos ter problemas na condução das obras”.

Sob os codinomes de “Velho”, “Lindinho” e “Pavão”, Lopes teria recebido R$ 4 milhões entre 2010 e 2014.

Lopes, que tem foro privilegiado, será investigado pelo Supremo Tribunal Federal. As informações sobre Cabral foram encaminhas à Justiça Federal no Rio.

Defesa

Em nota, o advogado Luciano Saldanha Coelho, que defende o ex-governador Sérgio Cabral, afirmou: “Nossa manifestação sobre o caso será no próprio processo.”

Já a assessoria do deputado Julio Lopes, afirmou: “Em relação às delações de executivos da Odebrecht que teriam citações ao deputado Julio Lopes, informo:

1 O Deputado Julio Lopes está surpreso e indignado com ilações atribuídas ao seu nome, confia na Justiça, no trabalho realizado pelo Ministério Público e acredita que a verdade será restabelecida. Fatos desconexos, extemporâneos e completamente destoantes da realidade não podem ser utilizados como instrumento determinante para manchar reputações ou para qualquer acusação;

2 O Deputado Julio Lopes processará civil e criminalmente àqueles que tem tentado macular a sua imagem com mentiras e falsas acusações;

3 O Deputado Julio Lopes não teve qualquer responsabilidade ou mesmo qualquer ingerência na definição de custos, preços e pagamentos das obras da Linha 4;

4 As atribuições pertinentes às obras da linha quatro, conforme várias vezes noticiado pela imprensa, foram de responsabilidade da Casa Civil. Apenas em 2017 o governador Pezão atribuiu a responsabilidade da Linha 4 à Secretaria de Transportes.”

A Construtora Queiroz Galvão afirmou que não comenta investigações em andamento.

domingo, 16 de abril de 2017

Média de passageiros da linha 4 do metrô é 46% abaixo da esperada

16/04/2017 - O Globo

Composições transportam apenas 140 mil passageiros por dia
   
POR LUIZ ERNESTO MAGALHÃES 

Passageiro espera o trem da linha 4 na estação Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca - Ana Branco / Agência O Globo

RIO - A diarista Antônia Figueiredo mora em Guaratiba e uma vez por semana precisa ir a Botafogo, para trabalhar. Depois de algumas viagens pela Linha 4, ela desistiu de pegar o metrô até a Zona Sul. Apesar de economizar quase uma hora no deslocamento, preferiu voltar à rotina de embarcar em três ônibus: usa uma linha alimentadora, o BRT Transoeste e um circular. A decisão foi baseada unicamente na questão financeira: embora mais rápida e sem aperto, a viagem de metrô pesa no bolso.

— De ônibus, gasto R$ 7,60 para ir a Botafogo e voltar, pois pago apenas uma passagem com o Bilhete Único. De metrô (considerando a tarifa promocional válida na integração do BRT com a Linha 4 na estação do Jardim Oceânico), desembolso R$ 14. Ou seja, prefiro economizar R$ 6,40 — explica Antônia.

A justificativa da diarista é a mesma de muitos passageiros que, desde a semana passada, aproveitam a gratuidade oferecida pela concessionária do metrô para quem embarcar nas estações da Linha 4, que vai de Ipanema à Barra. A chance de viajar de graça termina hoje.

PROJEÇÃO FICOU LONGE DA REALIDADE

A promoção, lançada sete meses após a abertura da nova linha, é uma estratégia para atrair passageiros, já que as composições têm circulado vazias. Estudos técnicos de demanda contratados pelo governo estadual em 2011 previam que a Linha 4 transportaria cerca de 300 mil usuários por dia no primeiro ano de operação. A realidade, no entanto, está longe da projeção: antes da oferta de viagens gratuitas, a média diária era de 140 mil por dia (46,6% do total esperado).

Vagão com vários assentos desocupados: imagem comum em composições que deixam a estação do Jardim Oceânico. - Ana Branco / Agência O Globo

Agora, a expectativa da Secretaria estadual de Transportes é que o patamar de 300 mil só seja alcançado em três anos. A nova previsão é fechar os 12 primeiros meses de operação com 255 mil usuários por dia, o que significa aumentar em 82% o número de usuários.

Em nota, o órgão admite que os estudos de viabilidade foram desenvolvidos projetando um outro cenário nas demandas por viagens na Linha 4. A secretaria também reconhece que o modelo atual, sem integração, acarreta ineficiência para todo o sistema de transporte público da Barra. Agora, o estado vem revendo todo seu planejamento operacional na região.

O estudo original da Linha 4 traçava um cenário no qual haveria integração tarifária entre diversos modais, e não apenas com o BRT. A expectativa era que 65% dos usuários chegassem ao metrô por meio de outros tipos de transporte. Além disso, o plano inicial não previa, por exemplo, as obras da prefeitura no Elevado do Joá, que ampliaram em 35% (cerca de 40 mil veículos a mais) a capacidade da via, minimizando um dos principais gargalos da ligação da Barra-Zona Sul.

Também ficou de fora do projeto a implantação, por parte do município, de um sistema de racionalização das linhas de ônibus, iniciado há dois anos e suspenso pelo atual prefeito Marcelo Crivella, para reavaliação.

ESPECIALISTA CRITICA PREFEITURA

A Linha 4, que consumiu mais de R$ 10 bilhões, foi projetada com seis estações. Cinco estão em funcionamento: Jardim Oceânico, São Conrado, Antero de Quental, Jardim de Alah e Nossa Senhora da Paz. A da Gávea continua sem sair do papel (o custo da obra é de cerca de R$ 500 milhões), mas isso não explica a baixa demanda: de acordo com o estudo original da Linha 4, ela é a que teria menor fluxo: 19.100 passageiros a cada dia útil.

— O cenário mostra que faltou planejamento integrado entre os projetos de mobilidade da prefeitura e do governo do estado. O desafio, agora, é estimular a integração entre os modais. É preciso evitar medidas que estimulem ainda mais o uso de automóveis. No entanto, a prefeitura já anunciou o interesse de fazer parcerias público-privadas para construir grandes garagens subterrâneas — critica engenheiro de transportes e professor da PUC José Eugênio Leal.

O secretário municipal de Transportes, Fernando Mac Dowell, defende a revisão do processo de racionalização das linhas de ônibus e também diz que o caminho certo é o da integração tarifária. Mas ele não dá prazos:

— Nós estamos conversando com o estado. O ideal seria a municipalização do metrô, para inclui-lo numa estratégia de operação com os ônibus. A integração tarifária é possível. Existiu nos primeiros anos do metrô na cidade.

Em nota, a Secretaria estadual de Transportes informa que tem monitorado as operações da Linha 4 e discutido com a concessionária do metrô medidas de integração com os ônibus. “Determinados serviços e linhas deveriam alimentar o sistema de alta capacidade, mas acabam por dividir passageiros”, diz o texto.

No entorno da estação do metrô no Jardim Oceânico, a operação dos demais serviços de transportes parece dar razão ao professor José Eugênio Leal. Para chegar ao terminal de integração pagando a passagem promocional (R$ 7), o passageiro tem como única opção o BRT Transoeste. Caso opte por uma das dezenas de linhas que circulam pela Avenida Armando Lombardi, terá que desembolsar os R$ 3,80 do coletivo mais os R$ 4,30 do metrô.

Não há descontos para quem viaja na Linha 4 e nos ônibus que param no terminal da Avenida Nuta James (em frente ao Condomínio Cascais), construído para operar de forma integrada com o metrô. O local virou apenas uma parada para duas linhas convencionais de ônibus que ligam a Barra até o Centro (concorrendo com o metrô), com itinerários que seguem pelo Alto da Boa Vista e pela Linha Amarela.

Morador do condomínio Alfa Barra, o advogado Josué Camargo é usuário da linha 805 (Alvorada-Jardim Oceânico), que circula pela orla em intervalos de aproximadamente 15 minutos. Ele diz que, de vez em quando, opta pelo ônibus, por ser mais barato.

— Trabalho no Centro. O metrô é mais rápido e confortável, pena que as tarifas sejam diferentes. Quando chega perto do fim do mês, escolho o ônibus para economizar.

ÔNIBUS DE CONDOMÍNIOS SEGUEM CHEIOS

Na Barra, a Linha 4 encontra um outro obstáculo: moradores de condomínios que têm ônibus fretados para o Centro e a Zona Sul não migraram para o metrô. Esses veículos representam uma oferta de dez mil assentos por dia. O presidente da Câmara Comunitária da Barra, Delair Dumbrosck, diz que a mudança só acontecerá se houver uma facilidade maior para o embarque na estação do Jardim Oceânico.

— Ainda não conseguimos autorização da prefeitura para que os ônibus fretados dos condomínios parem ali perto, no terminal da Avenida Nuta James. Além disso, solicitamos à concessionária que avalie a possibilidade de criar uma linha de “metrô sobre rodas” na região — reclama Dumbrosck.

A concessionária Metrô Rio informa, em nota, que o movimento diário nas estações da Linha 4 chegou a 150 mil passageiros neste período de viagens gratuitas. Além disso, destaca que sempre discute com o estado e a prefeitura novas integrações tarifárias.

A empresa não quis divulgar a quantidade de embarques em cada estação da Linha 4: alegou que se trata de um assunto estratégico. A Metrô Rio informou apenas que 52 mil passageiros passam pelo Jardim Oceânico a cada dia. O estudo de viabilidade indicava um potencial de 91.018 no primeiro ano de operação.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/media-de-passageiros-da-linha-4-do-metro-46-abaixo-da-esperada-21214768#ixzz4ePUP4l3K 
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