domingo, 6 de maio de 2012

Cariocas terão quatro anos de tormento com obras do metrô

06/05/2012 - O Globo

As obras estão previstas para começar em junho, quase cinco meses após o prazo original. Até lá, o estado espera concluir o licenciamento ambiental do empreendimento.

Por Selma Schmidt

Serão tempos difíceis. As obras de construção da Linha 4 do metrô na Zona Sul prometem mudar drasticamente a rotina de Ipanema, Leblon, Lagoa e Copacabana nos próximos quatro anos. Para dar lugar a oito dos nove canteiros de obras do projeto, os moradores terão que conviver com alterações no trânsito, redução do número de vagas de estacionamento e fechamento de áreas de lazer. Até mesmo o Parque do Cantagalo, na Lagoa, será afetado: um dos canteiros deverá ser instalado num estacionamento, que servirá de pátio de caminhões e maquinário. Ruas residenciais e avenidas com crônicos problemas de congestionamento receberão uma média de 270 caminhões por dia, só no primeiro ano de obras, segundo o estudo de impacto ambiental (EIA-Rima) da expansão. Os veículos farão o transporte de material entre os canteiros e a remoção do entulho das escavações. O impacto no meio ambiente também foi quantificado: 197 árvores terão que ser removidas nas praças Nossa Senhora da Paz, Antero de Quental e no Jardim de Alah, onde serão construídas estações. Dessas, 59 não serão repostas.

As obras estão previstas para começar em junho - quase cinco meses após o prazo original. Até lá, o estado espera concluir o licenciamento ambiental do empreendimento. As intervenções também estão sendo discutidas com a prefeitura, que terá de planejar as mudanças no trânsito e autorizar a retirada de árvores. Se o EIA-Rima for seguido à risca, o canteiro da Lagoa será usado por dois anos. O local passa por obras de estabilização do terreno (que tem histórico de afundamentos e alagamentos), feitas pela Geo-Rio a um custo de R$ 8,41 milhões.

A conclusão das obras da Linha 4 (Barra da Tijuca-Ipanema) é estimada para dezembro de 2015, mas a fase de testes se estenderá de janeiro a maio de 2016.

De acordo com o secretário municipal de Conservação, Carlos Roberto Osorio, a prefeitura analisa a conveniência do uso do espaço na Lagoa. O EIA-Rima, porém, ressalta os transtornos que o canteiro poderá causar. "É possível que se perca a área gramada para que a pista no entorno da Lagoa não seja interrompida. Comerciantes deverão se deslocar para outro ponto, assim como os visitantes deverão estacionar em outro local", diz o texto. A presidente da Associação de Moradores da Fonte da Saudade, Ana Simas, se assustou ao saber do canteiro:

- O parque é um espaço importante não apenas para os moradores da Lagoa, mas para os cariocas. É uma área turística. Sem falar que foi reformado. Vão quebrar o que construíram?

Rebouças pode ser rota de caminhões

A quantidade de caminhões em circulação na Zona Sul deverá crescer ainda mais no ano que vem, quando as obras estiverem a pleno vapor, passando a 449 veículos por dia. A escalada continua em 2014, com 607 caminhões diários. As rotas propostas para esses veículos mexem em grandes eixos de trânsito. Caso seja autorizado, o transporte de rochas e lama deverá ser feito pela Autoestrada Lagoa-Barra e pela Avenida das Américas.

Também foi proposto o uso do Túnel Rebouças para o transporte das peças de concreto do revestimento dos túneis do metrô, que serão construídas no único canteiro fora da Zona Sul (num terreno na Praça da Bandeira). Hoje, a circulação de caminhões no Rebouças é proibida, à exceção dos veículos da Comlurb. A alternativa ao Rebouças, segundo o EIA-Rima, seria o Túnel Santa Bárbara, passando por Botafogo e Humaitá.

Entre as alterações de tráfego previstas, a Avenida Borges de Medeiros deverá ser transformada em via de mão dupla perto do Shopping Leblon. Já a Avenida Ataulfo de Paiva será interditada total ou parcialmente em dois pontos. O trânsito deverá ser desviado pela Rua Humberto de Campos.

Na outra ponta do Leblon, a Rua Igarapava terá um trecho fechado por dois anos para servir de canteiro de obras. Uma parte dele ficará sobre o canal da Avenida Visconde de Albuquerque, onde deverá ser construída uma laje. As mudanças preocupam a presidente da Associação de Moradores do Leblon, Evelyn Rosenzweig, que teme impactos para os moradores e o comércio do bairro:

- Estou apavorada. Vamos perder as vagas nas ruas Humberto de Campos e Aperana, onde não será possível estacionar. Há 3.500 unidades habitacionais no Alto Leblon, sendo que 80% dos moradores usam a Igarapava. Além disso, quem vai querer fazer compras num bairro cercado por tapumes e sem lugar para estacionar?

Evelyn afirma ainda que é preciso definir uma logística para que os caminhões provoquem o mínimo de transtornos:

- O bom senso diz que a circulação deverá ser à noite, por causa do trânsito. A questão é se isso não vai infernizar a vida dos moradores.

Em Ipanema, onde o fechamento da Praça Nossa Senhora da Paz deverá ser alvo de manifestação no dia 12, outros dois canteiros serão montados nas esquinas da Rua Barão da Torre com a Farme de Amoedo e da Visconde de Pirajá com a Aníbal de Mendonça. As calçadas e parte das ruas serão fechadas. A Nossa Senhora da Paz terá o maior número de árvores retiradas - 113 do total de 309 existentes hoje no local. Mas a promessa do estado é que cem delas voltem a seus locais de origem após as obras.

Já na Praça Antero de Quental, 46 árvores deverão ser suprimidas, e só a metade será devolvida, quando o metrô estiver pronto. No Jardim de Alah, onde ficará o principal canteiro, serão retirados 38 espécimes, 15 vão ser replantados.

As obras do metrô terão três centrais de produção de concreto, duas funcionando na Zona Sul, nos canteiros do Jardim de Alah e de parte do terreno do 23 BPM (Leblon). Segundo o estado, nesses locais o maquinário funcionará das 7h às 22h. Na Praça da Bandeira, a produção deverá ser 24 horas por dia.

As obras deverão começar simultaneamente pela Antero de Quental, pelo Jardim de Alah e pela General Osório, onde será dada a partida da perfuração das galerias. Pelas dimensões da máquina de perfuração, conhecida como tatuzão, será necessário fechar por oito meses as estações do metrô de General Osório e Cantagalo, a partir do primeiro trimestre de 2013.

O presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães, diz que o EIA-Rima não explica como será feita a integração do Metrô de Superfície entre Copacabana e Barra, com o fechamento das duas estações:

- A prefeitura construiu uma ciclofaixa na Rua Figueiredo Magalhães, ao lado da estação Siqueira Campos, que passará a ser fim de linha temporário do metrô. Do outro lado, na Rua Siqueira Campos, foi instalado um ponto final de ônibus. Onde o Metrô de Superfície vai pegar e deixar passageiros?

Estação da Gávea, o maior impasse

Já na Gávea, as obras de construção da estação deverão ser iniciadas até três meses após a instalação dos demais canteiros. A estação é alvo de um impasse entre a Secretaria estadual da Casa Civil e a Comissão Estadual de Controle Ambiental (Ceca), que aprovou o EIA-Rima e a licença prévia da obra na semana retrasada, com restrições. A presidente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), Marilene Ramos, explica que a principal condicionante para a conclusão do licenciamento é chegar a um acordo sobre a estação. A comissão aprovou a obra em dois níveis para que ela possa ser continuada futuramente, mas o estado quer construí-la com um andar. Outra ressalva determina a colocação de bicicletários em todas as futuras estações. E a terceira diz que as árvores da Praça Nossa Senhora da Paz terão que ser preservadas ao máximo, mas não fala em números. Enquanto isso, as escavações do túnel que ligará São Conrado à Gávea estão adiantadas. Segundo o consórcio Rio-Barra, as escavações, nos sentidos Gávea e Barra, alcançaram 291 metros.

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